quarta-feira, 27 de maio de 2020

Quando chega a hora de mudar - As escolhas que temos que fazer


Quando aprendi a dirigir um automóvel, lá nos tempos do avião à lenha, a minha preocupação não era apenas a de guiar o carro, mas de saber trocar a marca no momento adequado. Nem antes, nem depois, mas no tempo certo. Com o tempo, aprendi que é o ruído, o ronco do motor, quem determina a hora da troca de marchas, e ao largo dos anos, nem penso mais nisso. Apenas acelero, e mando ver.

Toda mudança acontece pelo desconforto do momento. Se trocamos alguma coisa, é porque a situação atual nos incomoda, não nos agrada mais, perdeu a serventia. São diversos os motivos pelos quais nos detemos em novas escolhas. Seja uma roupa, um sapato, um emprego, um companheiro ou companheira, e até mesmo na geladeira, escolhemos ou ou outro alimento que possa nos proporcionar satisfação naquele momento. Ora,  escolhemos um copo de leite, uma geleia para o pão, ou em outro momento, optamos por uma fruta, um doce, um ovo mexido, enfim, a todo momento, algo nos causa enfado, e por isso mudamos nossa condição, e escolhemos novas alternativas.

Há escolhas voluntárias, e outras, obrigatórias. E nesse momento, o mundo passa por uma gigantesca dança das cadeiras, especialmente nas profissões, terreno vantajoso para que tinha planos de mudar, mas faltava coragem. Agora a coragem veio em forma de necessidade e mudar é vital, é caso de sobrevivência, e é necessário que o nosso melhor potencial seja aflorado nesse momento, para que alguém com mais potencial venha e tome o nosso lugar. As concorrências serão o pão de cada dia, e só quem tem uma boa geleia para oferecer, venderá o seu próprio pão ao faminto, tanto pelo sustento, quanto pelo que pode haver de melhor nesse sustento.

Estamos entrando no capítulo da história onde vira a página e muda o rumo do conto. Mudança nos hábitos de asseio (aqui os franceses são os que sofrem mais), no comportamento social, os políticos ainda se encontram completamente desnorteados, tentando inventar um cumprimento tão eficiente quanto o aperto de mãos e o tapinha nas costas. Os vendedores nas lojas e os camelôs nas ruas, além do celular colado à mão, não podem mais dispensar de uma máscara, e de um frasco de álcool em gel. Quem vai perder muito dinheiro, serão os cosméticos, especialmente batons e cremes estéticos faciais, que perdem sua função, e ainda lambuzam a máscara, e claro, que logo a própria máscara será um belíssimo objeto de adorno, como aconteceu com o sutiã (embora eu prefira mais o conteúdo do que a embalagem), e as grifes instigarão seus designers a criarem coleções de quatro estações do acessório facial, condizente com o status e poder aquisitivo da pessoa que usa, e sim, também estas indústrias, agregarão novos produtos condizentes com o modo de viver das pessoas, e de acordo com seu poder aquisitivo. Mudanças.

De minha parte, comecei a fazer mais uma mudança, pois embora eu seja um camaleão que me adorno com as cores do ambiente em que vivo, analisando com acurada atenção para o momento, ouvindo mais e falando menos, escolhi fazer exatamente aquilo que fiz ao longo da vida: Criar, inovar, ensinar, e transformar. Voltei ao Design, atividade que me abandonou nos últimos anos, e que agora, cruza novamente o meu caminho, mais abastecida, mas  dinâmica, e que oferece a possibilidade de levar a cabo toda a experiencia que tenho acumulado ao longo de mais de seis décadas de vida, e pela surpresa contínua de que sou mais criativo hoje do que fui aos vinte anos, posto que a experiência fortalece a esperança, e torna-me mais capaz a cada dia que passa. Esta é a minha hora e então eu também vou mudar, porque não estou contente em esperar que mudem por mim. Quero sair na frente.




Inovação, Criatividade, e Sustentabilidade - Os novo paradigmas da pós-pandemia



Não irei gastar nosso tempo em descrever os estragos que o COVID-19 causou, causou, causa, e ainda vai causar no mundo, e pior que isso: na sua e na minha vida pessoal. Aí que o caldo entorna, pois, enquanto se fala em mundo, sempre criamos certa repulsa de negativismo, limitando nossa atitude em algum comentário de condolências com aqueles que sofrem na Ásia, na África, ou em qualquer lugar bem, mas bem longe de nós. Porém, quando a topada é no nosso dedinho, aí repensamos nosso conceito de catástrofe, e imediatamente avançamos o video de nossa existência, para a parte boa, e acreditamos, porque precisamos acreditar que é só uma fase ruim, e que logo, milagrosamente, misteriosamente, e felizmente, aquilo que era assustador, vai passar, aquilo que parecia uma tempestade, terminará com um nevoeiro e um belo arco-íris, lembrando que o concerto de D-s com o Homem continua em vigor.

No aspecto prático, precisamos revisar um pouco a história e lembrar que em muitos momentos, o mundo passou por mudanças de comportamento e humor, seja na Natureza, seja no mundo político, ou no caminho cruzado com pandemias e calamidades, e em todos eles, um grupo sobreviveu às catástrofes, então, certo é que muitos perecerão, e outros muitos mais, sobreviverão ao COVID-19. A questão não é o número dos que irão sobreviver, mas quem sobreviverá, e mais ainda, se nós estaremos entre os afortunados que iremos contar aos netos esse tempo em que fomos protagonistas.

De todo modo, na favorável hipótese de que seremos nós, os remanescentes, precisamos lembrar que temos um "oeste" a desbravar, como fizeram os pioneiros americanos, e que nesse novo mundo, literalmente, teremos mais desafios do que tiveram nossos antepassados, com suas calamidades, mas teremos um fator declaradamente efetivo ao nosso favor: o conhecimento, a informação, que representarão mais da metade da força que necessitamos para buscar a quase metade que ainda vai faltar, para que nosso "oeste" seja repovoado o mais breve possível.

O conhecimento, trazido pela informação, através dos recursos que nos são oferecidos, representam o combustível para que o trem da nova história tenha força de arranque de um jato, a estabilidade de um bom carro, e o espaço necessário para todos os que nele desejarem embarcar. Vejo então que se, de um lado, fecham-se portas para o modo estabelecido de viver, por outro, estica-se um imenso pano branco e cedem-nos pincéis, para que pintemos o novo mundo, do jeito que acharmos melhor.  Abrem-se oportunidades, mas não para todos: apenas para or bravos, os fortes, os corajosos, e os criativos, mas mais que isso, abrem-se oportunidades para os ousados, e principalmente para os experientes, aqueles que investiram no conhecimento e na ciência, e que depuraram o saber transformando-o em sabedoria, e fazendo da sabedoria, o combustível para a nova jornada.

Investir na sabedoria, mais que no conhecimento, é o que vai permitir sobreviver, e mais que isso, viver, e caminhar com leveza pelas encostas dos frágeis caminhos entre penhascos e paredões, pois nenhuma das palavras que ora escrevo falam em facilidade, de jeito nenhum. Será um mundo mais difícil, mas nem por isso, insuportável.

Inovar, o que antes era tarefa de doidos, de visionários, de sonhadores, torna-se o aditivo selecionador entre a a ação e a inanição.  O agente de criação, seja ele um Designer, um expert em tecnologia, um cientista, um professor, ou um catador de reciclados, são os vértices da nova sociedade, baseada da sustentabilidade e no uso responsável dos meios, tempo e recursos. A nova sociedade exigirá, muio mais do que bens e serviços de qualidade, como também bens e serviços de conceitos e matrizes renováveis e  que proporcionem conforto e respostas às necessidades cotidianas.

Estamos redesenhando o mundo do "day after", a manhã do dia seguinte, onde aquele "doido que tinha ideias" da empresa, deixa de ser debochado, e pode ser o responsável pleas soluções encontradas pelo fato de que olham de outro ângulo, e quebram paradigmas em coisas aparentemente triviais e ancestrais. A nova sociedade deverá primar pela afetuosidade que foi interrompida pelo isolamento, e haverão dois caminhos possíveis: O reconhecimento da necessidade do convívio em família, ou, terrivelmente oposta, a constatação de que a família ideal é aquela que vive cada um por si, no seu espaço, e ao seu modo, e por mais assustador que possa ser esta possibilidade, devemos lembrar que sociedades assim já existiram e ainda existem. Esparta era um lugar onde as crianças pertenciam ao estado, e conviviam com pai e mãe biológicos até a idade de cinco anos, e depois disso, eram levadas ao convívio da comunidade, onde todos faziam suas refeições em um único local, inclusive o rei. Ou nas sociedades comunistas, onde a família como vemos não passa de agentes de procriação, ficando a responsabilidade da educação moral e social, ao cargo do governo. Esta é uma possibilidade a ser avaliada em muitos lugares, e já, provavelmente em curso, por alguns países, que perceberam quão fácil é promover o medo e manter o povo sob seu domínio voluntário.

Seja qual for o caso, e até mesmo para o totalitarismo político, econômico e social, os princípios da sustentabilidade, da criatividade, e da inovação, serão as chaves que abrirão todas as demais portas. A economia poderá ser a motivadora desta transformação, mas sem os agentes inovadores, nem mesmo a economia subsistiria. Então, seja criativo, seja inovador, e acima de tudo, seja livre, para continuar a caminhar na sua própria rua. Seja livre para continuar vivo.

A experiência será o tanque que armazenará a sabedoria, e a sabedoria será a água que saciará a sede da própria existência. Isso tudo, não descartando a melhor de todas as possibilidades: que O messias venha antes e endireite o que é torto, para que nossos pés possam caminhar sem tropeços pela eternidade afora.

Pacard
Escritor - Designer - Consultor*

Seminário de Economia Criativa